Essa
é uma pergunta que muita gente me faz, e eu sei que sempre alguém
vai fazer. Por que você decidiu abrir mão dos suculentos bifes de
filé mignon, do frango com catupiry nas pizzas, do salmão assado e
dos espetinhos sem fim?
Eu
tenho várias respostas para essa pergunta, porque a motivação não
veio de um fator apenas. Confesso que às vezes escolho a que vai ser
melhor entendida por quem me indaga. Mas talvez para poucos eu tenha
conseguido explicar inteiramente.
Nos
meus 18 anos muita coisa aconteceu, assim como na vida da maioria
nessa idade. Eu tinha começado a faculdade de Jornalismo e iniciado
um período mais intenso de amadurecimento. Foi nesse ano também que
eu consegui adotar meus primeiros cachorros: a Peteca e o Pitchuco, e
eu sei que eles aguçaram ainda mais meu sentimento pelos animais.
Naturalmente,
pouco a pouco, meu corpo começou a rejeitar as carnes. Tudo bem que
eu já não era muito acostumada com carnes mais pesadas, vermelhas e
de porco, o que pode ter ajudado. Mas meu organismo simplesmente não
conseguia mais processar aquela comida, que me deixava pesada.
E
foi na mesma época em que chegou às minhas mãos um livro espírita,
escrito por um médico veterinário, que fala sobre os animais,
trazendo também algumas informações sobre vegetarianismo
(Todos os Animais Merecem o Céu, de Marcel Benedeti).
Todos
esses acontecimentos me trouxeram a consciência do que realmente é
a carne, de onde ela vem, de que ela é fruto da morte de animais.
Parece uma besteira, mas é tudo tão industrializado e pronto, que
eu demorei para ter a real noção de que um bife era um pedaço de
um animal morto e do que aquilo significava para mim.
Foi
quando eu pensei em me tornar vegetariana, pesquisei, me informei
para que pudesse adaptar minha alimentação e, em cerca de duas
semanas, parei completamente de comer carnes (sim todas elas,
incluindo peixe, frango e todos os frutos do mar). Tem gente que me
pergunta se eu não sinto falta. No começo parar de comer frango
totalmente me foi um pouco estranho, mas eu já não me sentia bem
com nenhuma carne e logo perdi totalmente a vontade de comer qualquer
tipo dela.
Só
depois eu fui assistir a alguns documentários que mostram como os
animais são tratados pela indústria da carne: feito objetos. E toda
essa consciência só reforçou ainda mais minha decisão.
Eu
sei que muitas pessoas ainda enxergam os animais como objetos. Em
tempos em que tantos tratam os próprios seres humanos – até
amigos e familiares – como coisas, não é de se estranhar,
infelizmente. Mas meu amor pelos bichos aumentou tanto, tanto, que eu
não conseguia mais enxergar um bife como uma comida. Era mais forte
que eu. Para o meu coração, é um cadáver do qual meu corpo não
necessita para viver. Um sofrimento que eu não queria mais ajudar a
causar.
Acima
de tudo, foi o amor por eles que me fez ser vegetariana, mas
principalmente, foi o que me trouxe felicidade por ser vegetariana.
Longe de mim ser radical e torrar a paciência das pessoas impondo o
vegetarianismo. Até porque seria hipócrita da minha parte, pois
minha forma de amar os animais não é perfeita. Eu nunca consegui me
tornar vegana, por exemplo, aquele tipo que não come derivados
animais como leite, ovos e mel. Mas só de causar menos sofrimento a
eles, já sinto meu corpo e minha alma mais
leves.
Também
não quero aqui julgar nem condenar os que não são vegetarianos.
Não acredito que eles amem menos os animais. Conheço muita gente
que faz muito mais por eles do que vários vegetarianos por aí.
Parar de comer carne é uma decisão séria, que deve ser feita com
consciência e responsabilidade. Afinal, é preciso se alimentar
adequadamente, pois nosso corpo ainda necessita da matéria para
viver.
Depois
de seis anos, eu posso dizer que é possível parar de ingerir carne e
continuar comendo muito bem, com saúde do corpo, da mente e com um
pouco mais de paz no coração.